IPCA-15, petróleo e escala 6×1 pressionam mercado

O Ibovespa ensaiou recuperação pela manhã, mas terminou novamente pressionado, voltando para a região dos 175 mil pontos. O índice perdeu força conforme o mercado digeria um IPCA 15 acima do esperado, deterioração na curva de juros e a aprovação da PEC do fim da escala 6×1. O pregão começou falando de geopolítica. Terminou falando de custo Brasil. Como quase sempre acontece por aqui.

O grande vetor global do dia foi o petróleo. O Brent despencou 5,31%, encerrando a US$ 94,29, enquanto o WTI caiu 5,55%, para US$ 88,68, diante da expectativa de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã. O mercado internacional operou o clássico “menos guerra, menos prêmio”. Em qualquer manual racional, isso ajudaria emergentes. No Brasil, ajudou apenas a lembrar que Petrobras ainda pesa mais no índice do que o otimismo.

PETR4 caiu cerca de 1,40% e figurou entre as ações mais negociadas do pregão. Quando o petróleo sobe, o mercado teme inflação global. Quando o petróleo cai, o mercado teme Petrobras. O investidor brasileiro já não opera cenários. Opera traumas em tempo real.

O IPCA 15 mostrou que a inflação continua desconfortavelmente resiliente. Mais do que o número cheio, o mercado olhou para a composição e enxergou uma inflação que segue contaminando núcleos e serviços. Traduzindo para o português claro: o Brasil continua convivendo com preços altos até naquilo que não deveria mais subir. Inflação é assim. Primeiro ela sobe nos gráficos. Depois sobe no humor do país inteiro.

A curva de juros respondeu rapidamente. Os DIs longos voltaram a encostar na faixa dos 14%, com o mercado reduzindo apostas de cortes relevantes na Selic no curto prazo. O DI para 2035 rondava 14,01%. É um número tecnicamente frio e politicamente brutal. Ele significa que o mercado ainda cobra caro para acreditar no Brasil.

O dólar também ganhou força frente ao real. E talvez esse tenha sido o detalhe mais simbólico do dia. O mundo entregou petróleo em queda, dólar global mais fraco e bolsas relativamente estáveis. Ainda assim, o câmbio local sofreu. Existe uma diferença importante entre um país barato e um país percebido como arriscado. O Brasil, às vezes, consegue ser os dois ao mesmo tempo.

No campo político, a aprovação da PEC que reduz a jornada para 40 horas e praticamente enterra a escala 6×1 adicionou um novo ingrediente ao debate econômico. A pauta tem forte apelo social e emocional, mas o mercado começou imediatamente a precificar produtividade, custo operacional e impacto inflacionário. Porque no fim das contas alguém sempre paga a conta. E normalmente não é quem escreveu o discurso.

O Tesouro Nacional também revelou um dado emblemático: quase 56% das emissões de abril vieram de LFTs, títulos atrelados à Selic. Em momentos de incerteza, o investidor brasileiro corre para o pós fixado com a mesma velocidade que o carioca corre quando começam os primeiros pingos de chuva. Não é covardia. É memória afetiva de crise.

No corporativo, o dia teve a estética perfeita do mercado atual: bancos perdendo força, Petrobras pressionada, Vale segurando o índice quase sozinha e ações extremamente descontadas subindo forte em movimentos oportunistas. O capital continua seletivo. O investidor aceita risco, desde que seja muito bem remunerado por ele. A era do dinheiro inocente acabou faz tempo.

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