A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da proposta que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho acendeu um alerta no varejo de material de construção. Para a Associação Nacional de Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), entidade que representa 160 mil lojistas no país, o tema precisa ser debatido com equilíbrio para que a busca por mais qualidade de vida não produza, na prática, efeitos negativos sobre a manutenção dos empregos.
A preocupação foi reforçada durante um webinar promovido pela entidade com lideranças de federações e associações de lojistas de material de construção de todo o Brasil, entre elas 3 Fecomacs e 38 Acomacs. O encontro reuniu representantes regionais do setor e evidenciou a apreensão de empresários diante dos possíveis impactos da mudança sobre os custos operacionais, o funcionamento das lojas, a necessidade de reorganização de equipes e a preservação de postos de trabalho.
A proposta aprovada na Câmara segue agora para análise do Senado Federal. O texto prevê a redução gradual da jornada semanal, com dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial. O Sistema Anamaco reconhece a relevância da discussão sobre qualidade de vida, saúde do trabalhador e modernização das relações de trabalho, mas avalia que a mudança pode gerar impactos relevantes em setores que dependem fortemente de mão de obra presencial.
Setor que movimenta R$ 238,9 bilhões alerta para impactos do fim da escala 6×1
No varejo de material de construção, essa preocupação é considerada especialmente sensível. O setor é formado majoritariamente por pequenos e médios negócios, empresas familiares e operações regionais que dependem de atendimento direto ao consumidor, funcionamento aos sábados, entrega de mercadorias, reposição de estoque, logística e equipes presenciais.
Segundo estudo do Instituto de Pesquisas Anamaco, o Brasil conta com 160.627 lojas varejistas de material de construção em 2025. O levantamento também aponta faturamento de R$ 238,9 bilhões em 2025, com crescimento nominal de 2,4% em relação ao ano anterior. O varejo de material de construção representa aproximadamente 1,88% do PIB nacional, enquanto a cadeia da construção corresponde a cerca de 6,6% do PIB brasileiro.
“Todos nós queremos melhores condições de vida para os trabalhadores. Esse é um debate legítimo. Mas qualquer mudança desse porte precisa considerar a capacidade real das empresas de absorver novos custos sem reduzir postos de trabalho. O que ouvimos das lideranças regionais é uma preocupação concreta: se a conta não fechar, o risco é que uma medida criada para ampliar descanso acabe provocando desemprego em parte do comércio”, afirma Cassio Tucunduva, presidente da Anamaco.
Apesar da relevância econômica, o setor opera em um ambiente de pressão. Juros elevados, crédito mais restrito, consumo cauteloso, aumento de custos operacionais e margens apertadas já afetam a tomada de decisão de empresas do varejo e da indústria de materiais de construção.
Nos últimos meses e anos, o mercado tem registrado movimentos importantes de reestruturação, com importantes empresas multinacionais anunciando a saída do segmento de distribuição de material de construção no Brasil, anúncios de reestruturação e fechamento de unidades no varejo e na indústria. Para a Anamaco, esses casos não devem ser tratados como episódios isolados, mas como sinais de um setor que passa por ajustes de eficiência, revisão de custos e adaptação a um novo ciclo econômico.

