Os números ajudam a entender por que Lula desembarca nesta sexta-feira em Salvador para caminhar ao lado de Jerônimo Rodrigues e, ao mesmo tempo, por que ACM Neto faz tanto esforço para manter Flávio Bolsonaro à distância de sua campanha. Na Bahia, o apoio do presidente acrescenta votos. O de Bolsonaro, ao contrário, afasta.
A Quaest divulgada nesta quinta-feira (27) mediu isso diretamente. Para 49% dos baianos, o próximo governador deve ser aliado de Lula; 30% preferem um nome independente e apenas 16%, um aliado de Flávio Bolsonaro. Quando a pergunta é sobre a influência pessoal dos presidenciáveis, a diferença aumenta: 37% dizem que o apoio de Lula aumenta a possibilidade de votar em determinado candidato e 21% afirmam que diminui. Com Flávio acontece o inverso: seu apoio ajuda entre apenas 13% e reduz a chance de voto para 41%.
Não é um espasmo provocado pela campanha. Em abril, outra Quaest já mostrava 47% dos baianos querendo um governador aliado de Lula; em julho, eram novamente 47%. Agora são 49%. Há quatro meses, portanto, praticamente metade do eleitorado responde da mesma maneira.
A Opnus/BNews foi ainda mais longe e colocou os padrinhos políticos dentro da própria pergunta. Sem citar apoios, Jerônimo marcava 45% e ACM Neto 44% num segundo turno, empate técnico. Quando o governador era apresentado ao lado de Lula, Rui Costa e Jaques Wagner, saltava para 51%. Neto, associado ao União Brasil, João Roma e Ângelo Coronel, caía para 39%. A diferença, que era de um ponto, passava a 12. No primeiro turno, o mesmo movimento aparece: Jerônimo sobe de 43% para 46% em um dos cenários, enquanto Neto recua de 40% para 38%.
O tamanho desse patrimônio eleitoral aparece na própria corrida presidencial. Na Quaest de quinta-feira, Lula tem 50% das intenções de voto na Bahia contra apenas 17% de Flávio.
Neto tenta jogar de uma forma peculiar. Sua candidatura reúne o PL na Bahia e tem João Roma, ex-ministro de Jair Bolsonaro, na chapa para o Senado. A estratégia nacional de Flávio Bolsonaro inclui apoiar ACM na Bahia justamente para derrotar o palanque de Lula, mas sem exigir que o candidato baiano declare apoio ao presidenciável do PL. A Folha registrou que Neto evita confrontar Lula e, embora sinalize apoio a Ronaldo Caiado, não se engaja na campanha presidencial.
Foi nesse contexto que Bruno Reis resolveu minimizar a presença de Lula em Salvador. Na quinta-feira, véspera da caminhada, chamou de “falsa ilusão” imaginar que a presença do presidente possa interferir na eleição e afirmou que “não altera nada”.
O despeito de ocasião esbarra nas pesquisas. Se Lula fosse eleitoralmente irrelevante para a disputa estadual, 49% dos baianos não diriam preferir um governador aliado a ele; o apoio presidencial não aumentaria a propensão ao voto de 37% do eleitorado; Jerônimo não saltaria seis pontos no segundo turno quando seu campo político é apresentado; e ACM Neto não gastaria tanta energia tentando conquistar o eleitor de Lula sem carregar junto o sobrenome Bolsonaro.
Há uma contradição difícil de esconder: enquanto Bruno diz que Lula não ajuda Jerônimo, ACM trabalha para que Lula ajude ACM.