Documentos produzidos pela gestão Bruno Reis mostram o que o prefeito tenta esconder: Salvador tem atenção básica insuficiente e isso pressiona as UPAs

A Secretaria da Saúde do Estado vem esclarecer informações divulgadas pelo prefeito Bruno Reis, que não correspondem à real situação da saúde pública de Salvador. E o faz baseada em documentos produzidos pela própria Prefeitura. 

O Plano Municipal de Saúde (PMS) 2022-2025 e a versão preliminar do PMS 2026-2029 registram, com detalhamento técnico e territorial, o que a gestão municipal tenta negar no discurso: Salvador ainda convive com cobertura insuficiente da atenção básica, vazios assistenciais em distritos periféricos e uma rede de média e alta complexidade concentrada nas áreas centrais e mais estruturadas da cidade.

Cajazeiras é o exemplo mais nítido desta situação porque coloca endereço, nome de unidade e dado clínico na falha do município. A própria Prefeitura identificou no citado plano, vazios assistenciais em Águas Claras, Cajazeiras VI, Cajazeiras VIII e Cajazeiras XI. Foi ela mesma que listou os problemas nas USFs Fazenda Grande, Fazenda Grande III, Yolanda Pires e Cajazeiras XI: ausência de apoio multiprofissional, gestantes que não são captadas a tempo, pré-natal do parceiro e pré-natal odontológico que não acontecem, crianças de até dois anos com baixo peso e desnutrição em crescimento. Não foi o Governo da Bahia que denunciou esta situação.

Quando o prefeito Bruno Reis busca culpar a regulação estadual pela superlotação das UPAs, não enfrenta a causa, mas, a consequência.  A superlotação não começa no Estado. Começa quando a rede municipal não cobre adequadamente o bairro, não acompanha a família, não garante exame, não oferece consulta em tempo oportuno e deixa a população buscar a urgência como primeira resposta. A regulação estadual organiza o acesso aos serviços disponíveis. Ela não substitui a atenção básica que algumas Prefeituras muitas vezes deixam de estruturar na escala necessária.

O PMS 2026-2029, documento da própria gestão municipal, registra que a rede de média e alta complexidade está concentrada na Barra, Rio Vermelho, Brotas e Centro Histórico. Já Cajazeiras, Boca do Rio e Subúrbio Ferroviário aparecem com baixa oferta local. O diagnóstico do PMS é claro: Salvador tem serviços concentrados em determinados territórios. O documento também mostra fragilidades importantes na infância e na presença territorial da atenção básica. Entre crianças de 0 a 10 anos, três causas concentram mais da metade das internações por condições sensíveis à Atenção Primária: infecções de pele e tecido subcutâneo, com 20,78%, pneumonias bacterianas, com 17,54%, e bronquites, com 17,17%. O próprio texto aponta a necessidade de reforçar a prevenção, qualificar o manejo das síndromes respiratórias e infecciosas e aprimorar a vigilância em saúde.

Na cobertura de Agentes Comunitários de Saúde, Salvador passou de 27,83% em 2015 para 31,66% em 2024, ritmo que o próprio documento classifica como lento. A comparação com outras capitais é ainda mais desfavorável: Fortaleza tem 47,02%, Belo Horizonte 57,76% e Recife 83,45%. O ACS é o profissional que faz busca ativa, visita domiciliar e acompanhamento territorial. Salvador ainda tem menos de um terço dessa cobertura.

A comparação com Fortaleza ajuda a dimensionar o atraso. As duas capitais têm população de porte semelhante, mas a diferença de rede municipal é evidente: Fortaleza mantém 10 hospitais e maternidades municipais, enquanto Salvador tem dois hospitais municipais e só inaugurou sua primeira maternidade municipal em 2026, depois de 13 anos. 

Outro exemplo: o Estado opera quatro unidades de saúde no território de Cajazeiras: Hospital Eládio Lasserre, Maternidade Albert Sabin, Unidade de Emergência Cajazeiras e Instituto Couto Maia e, infelizmente a prefeitura não mantém sequer uma UPA. Em toda a capital, são 39 unidades estaduais, incluindo 16 hospitais e seis maternidades. O Hospital Municipal de Salvador, localizado na região, não atende pacientes por demanda espontânea na emergência.

A Sesab pergunta: se a rede municipal funciona tão bem, por que os documentos da Prefeitura mapeiam vazios assistenciais, citam unidades com falhas e admitem que distritos populosos têm baixa oferta local de serviços? E por que uma capital como Fortaleza sustenta uma rede municipal muito mais robusta, enquanto Salvador ainda depende de forma tão intensa do Estado? A resposta está nos próprios documentos que o prefeito prefere transformar em silêncio.

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